Kátya Mórbis

Sabe aquele dia em que você perde a hora, não toma café, erra o caminho, chega atrasada, se sente culpada por tudo que deu errado e ainda chama isso de azar??! Rolou uma identificação? Pare tudo agora e aprenda comigo o poder de colocar ar pra dentro dos pulmões e levar oxigênio pro cérebro.

 

7 horas

O despertador toca. E eu, mesmo morrendo de sono, aperto o botão soneca, já sabendo que quaisquer cinco minutos que eu possa ganhar com aquela atitude, certamente irão ferrar com a agenda de todo o meu dia. Mesmo assim, insisto.

7h15

No toque seguinte, sem mais desculpas, me arrasto pra fora de cama e visto a roupa da academia. Sim, malhar é uma meta e eu preciso cumpri-la. Visto a roupa sem abrir os olhos, na esperança de que, se continuar com eles fechados, posso descansar mais um pouquinho. Aqueles quinze minutos a mais de cama já ferraram com o meu café da manhã. Se eu quiser chegar a tempo na academia, não dá pra esperar a água ferver. Resultado: bora malhar sem café, com um pão e água de coco…

7h40

Demoro a pegar no tranco na academia. Meu corpo ainda está “dormindo” enquanto faço os dez minutos de aquecimento na esteira. Finalmente acordo. Afinal, com o tipo de treino que preciso cumprir, não há como meu corpo ficar adormecido. É um circuito e quando não fazendo agachamento, estou pulando ou levantando peso… E, quando finalmente a adrenalina invade cada pedacinho do meu corpo, já está na hora de ir pra casa, pois a reunião começa em pouco mais de uma hora.

8h40

E eu ainda preciso alongar, tomar banho, arrumar o cabelo (sim, mulheres entenderão! Não basta tomar banho e sair correndo… E olha que eu nem uso secador!!!), me arrumar e sair correndo pelo trânsito (enquanto obviamente me maquio nos intervalos dos semáforos vermelhos) para chegar na hora da reunião. E, assim, prossigo.

Acordo, com vontade de dormir. Malho com vontade de tomar café. Alongo com vontade de fazer mais exercícios. Ou seja, faço todas essas coisas com o corpo no presente. E a mente presa no que fazia nos cinco minutinhos anteriores.

9 horas

Porém, na hora do banho, o pensamento inverte. E minha mente passa a estar cinco minutos na frente do meu corpo. Eu lavo o cabelo pensando na roupa que vou usar. Me visto pensando no trajeto que vou fazer pra chegar na reunião mais rápido. No trânsito, estou com a cabeça em tudo que devo falar e mostrar na reunião. E no semáforo, enquanto me maquio, penso que preciso urgente marcar a dermatologista…

9h50

E assim, com o cérebro em outro lugar, eu me desligo do Waze. E quando vejo, passei a rua do escritório há umas cinco quadras… Um nervoso me invade!!! Pelo tanto que fico ansiosa, parece que até aquela hora eu estava vivendo em harmonia com o meu dia e só agora eu tinha começado a ficar preocupada pelo fato de que chegaria atrasada na reunião. Tudo porque teria de fazer o retorno. Sim, coloquei toda a culpa na volta que tive de dar pra voltar ao local da reunião… E, dali em diante, o mau humor tomou conta.

10 horas

Nesse momento, enquanto faço o trajeto de volta, estou brava comigo mesma. Respiro irritada. E penso: vou chegar atrasada quinze minutos…. aqueles malditos quinze minutos que acionei o botão do soneca do despertador… E só uma pergunta passa pela minha cabeça:

Por quê? Por que eu sempre faço a mesma coisa? Por que eu nunca acordo quando o despertador toca e depois passo o dia irritada porque faço tudo com delay de quinze minutos???!!!

10h15

Chego na reunião. E nem tenho mais vontade de disfarçar, inventar uma desculpa, contar uma história. Estou exausta. Só se passaram três horas do meu dia. E sinto que corri uma maratona. Já poderia ir pra cama, dormir mais uma noite “deliciosa” de novo. Esboço um sorriso no rosto, afinal, vou encontrar uma possível cliente.

Ela vem me receber e de cara percebe a minha angústia. Por muita sorte, por acaso do destino ou pelo cara lá de cima achar que eu mereço, a reunião era com minha psicóloga, Sheila Drumond, que queria me propor uma parceria de trabalho.

Cheguei na sala dela mal sabendo quem eu era. E desabei. Sim, não sentei na cadeira, educadamente, como se faz – ou pelo menos se deve fazer – na frente de um prospect. Eu literalmente desabei na cadeira e ela apenas me perguntou: de qual furacão você sobreviveu?

Contei a saga daquelas três primeiras horas do dia. Ela cansou só de me escutar. Olhou pra mim e riu. Afinal, a cena deveria muito ser engraçada. Eu fiz o máximo para ser a aquela mulher que acorda cedo, malha, se arruma, toma um café da manhã saudável e sai feliz e disposta para o trabalho, pronta para enfrentar o mundo. Provavelmente, a imagem que ela via ali na sua frente não passava nem perto disso.

Então, ela me mandou fazer algo simples, muito simples. Respire. Respire fundo, leve oxigênio para esse cérebro pra mudar essa energia. E quando eu obedeci, senti o ar entrando pelo nariz e indo até os pulmões. A sensação foi tão boa que tive a impressão de nunca ter feito isso em toda a minha vida até então.

E, pasmem. Era isso mesmo. Eu respirava, muito provavelmente como você respira. Sem pensar, no piloto automático, tão distraidamente que a gente nem lembra que respira. E, naquele momento, sentir o ar entrar no meu peito era como experimentar algo novo e sensacional, que me tirava da correria frenética e do transe em que eu estava desde que acordei.

Era como dar um mergulho gelado num dia de calor, ganhar um abraço num dia de tristeza, parar a dor depois de um tombo, ouvir eu te amo de alguém que amamos. Respirar, naquele momento, foi simplesmente li-ber-ta-dor!!! Depois de algumas respirações, voltei ao momento, mas enxergando o dia de um outro ângulo, com uma nova perspectiva.

Me sentia outra pessoa. E já que tinha sobrevivido ao furacão, queria começar de novo. OK. Não dava pra voltar no tempo, lá na hora do despertador. Mas dava pra mudar a vibe e continuar o dia de outro jeito, com outra energia, sem aquele peso todo nos ombros.

Assim aprendi: quando tudo estiver indo rumo ao caos, pare e respire. Respire fundo, várias vezes, perceba o ar invadindo seus pulmões até não pensar em mais nada e sentir que você está no comando. Afinal, é você – e só você!!! – quem decide se o dia vai ser bom ou ruim.